O FALAR REGIONAL ALGARVIO Falares regionais são as maneiras algo peculiares que os falantes de determinadas regiões dum país usam para comunicarem entre si, utilizando a língua nacional mas introduzindo-lhe com alguma regularidade certas palavras, expressões e modos de dizer ou de pronunciar exclusivos de cada uma dessas mesmas regiões ou, de algum modo, aí mais habituais que nas outras. São logicamente predominantes nas classes populares e mais intensamente nas zonas rurais. Embora haja quem não diferencie entre falares regionais e dialectos, existe também quem entenda que os falares regionais têm, no seu conjunto, características próprias menos diferenciadoras em relação à língua padrão do que as dos chamados dialectos. Estarão, digamos, um grau abaixo deles, do ponto de vista de diferenciação em relação a essa base comum que é a língua padrão. O estudo dos falares regionais é de grande importância, não só do ponto de vista mais estritamente linguístico, como também do ponto de vista sócio-cultural. No aspecto linguístico poderá revestir-se de muito interesse como apoio ao estudo de certos pormenores das línguas nacionais. Se o estudo comparativo destas contribui marcadamente para aprofundar o conhecimento da história das línguas em geral e dos vários ramos linguísticos, do mesmo modo a comparação dos fenómenos linguísticos verificados nas diferentes regiões dum país poderão prestar relevante contributo para o estudo da história da língua nacional respectiva. Dado que se trata aqui especificamente do falar algarvio, pode desde já apresentar-se um exemplo duma contribuição deste tipo que o mesmo falar poderá prestar ao estudo histórico da língua portuguesa e que a seguir se expõe: Uma das particularidades morfológicas que ainda hoje se verifica no falar de alguns algarvios é a transformação do sufixo -inho em - ino, nos casos em que a consoante da sílaba antecedente, quando interna, é um n, o qual, para maior facilidade de pronúncia, provoca assimilação progressiva sobre o nh. Vejam-se alguns exemplos que se encontram ainda hoje, sobretudo nos meios rurais: canina (por caninha), danino (por daninho), donina (por doninha), finino (por fininho), panino (por paninho), penina (por peninha), tonina (por toninha). Este conjunto de exemplos, ao que parece só verificados no Algarve, poderia explicar, por comparação, a evolução morfológica das palavras menino (de meninho) e pequenino (de pequeninho), a qual tem sido bastante controversa, sobretudo no que se refere à primeira. Ainda dentro desta "incompatibilidade" entre n e nh em sílabas consecutivas (mas agora com n inicial e não medial), poderia também aventar-se a hipótese de explicar a evolução de Ninha-a-Pastora (grafia verificada ainda no século passado) para uma eventual "Linha-a-Pastora", que facilmente evoluiria para Linda-a-Pastora (grafia actual), de modo idêntico aos fenómenos ninho>linho e ninhada>linhada ainda presentemente verificados no Algarve. Do ponto de vista sócio-cultural, o estudo dos falares regionais pode contribuir significativamente para a preservação da identidade cultural das sociedade que as praticam, evitando que se perca totalmente a memória de vivências fundamentais das populações e ajudando a conservar as heranças culturais recebidas. Os termos e modos de dizer que caracterizam cada um dos falares regionais devem por isso ser estimados e mesmo recuperados, tanto mais que o seu uso vai sendo cada vez mais raro. Eles contêm elementos de natureza linguística e etnológica de grande valor. São parte tão integrante e tão válida da cultura dos povos quanto qualquer outra componente dessa cultura. E, como fenómenos linguísticos naturais que são, merecem-nos também todo o respeito. Também as pronúncias regionais merecem tanta consideração como a que é concedida a certas pronúncias, mais ou menos "irregulares", dos grandes centros urbanos. Se o lisboeta "retinto" já pronuncia carangájo (por caranguejo) por motivo da tendência linguística local, também o pescador algarvio estará no seu direito de dizer cangrejo. Fá-lo, aliás, com muita propriedade porque etimologicamente está mais próximo da origem (do latim cancriculu, através do espanhol cancrejo), acrescendo, além disso, que o próprio Camões assim o dizia, porque assim deixou escrito. O FALAR ALGARVIO - Como qualquer outra região, ou melhor, tal como algumas outras regiões de Portugal, também o Algarve apresenta no falar dos seus naturais variadas diferenciações bem marcadas em relação ao chamado português padrão (o de Lisboa, porque capital, ou, para quem prefira, o de Coimbra, como cidade onde o falar anda mais próximo da escrita). Só que o Algarve, devido ao prolongado isolamento a que esteve sujeito, apresentará um maior número de particularidades no falar dos seus naturais. Faz-se notar, desde já, que foi nas populações rurais, como é lógico, que as marcas deste isolamento mais perduraram, e perduram, pelo que é nelas que se vão encontrar as maiores, ou mais nítidas, diferenciações. Essa especificidade mais nítida das particularidades do falar algarvio são sentidas, não só pelos próprios algavios, com o que bastante se divertem, mas também por aqueles que de algum modo têm contactos com esse falar. Foi assim que Clarinda de Azevedo Maia, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, se propôs, nos anos setenta, levar a efeito um estudo sobre o falar algarvio, que intitulou de "Os Falares do Algarve" e onde afirma: «Sempre que nas aulas de Línguística Portuguesa tinha de caracterizar os dialectos e falares portugueses, me chamava a atenção a forte individualidade do falar algarvio no conjunto da paisagem dialectal portuguesa». De entre as razões que terão conduzido a essa maior diferenciação, podem apontar-se duas principais: Em primeiro lugar o isolamento que atrás se refere. A este respeito convém referir, por exemplo, que, até há menos de um século, as ligações com o resto do país, à excepção do Baixo Alentejo, quase só por via marítima se faziam. Este isolamento terá contribuído sobretudo para a conservação de termos e expressões que hoje são arcaísmos no português padrão. Por exemplo: cada um ano (cada ano), acarão (ao rés de, junto a), alacil (alacir), almairo (armário), alomear (nomear), àvondo (bastante), calmeiro (grande calor), esnoga (sinagoga), linhada (ninhada), mantelete (capa de senhora), pàdar (paladar), pifre (pífaro). A outra razão poderá atribuir-se ao substracto árabe. O domínio árabe prolongou-se no Algarve até muito mais tarde. Só em meados do século XIII foram conquistados os últimos castelos aos mouros no tempo de D. Afonso III. Porém a influência das populações árabes (residentes mas já não dominantes) manteve-se ainda por muito mais tempo, pois que alguns séculos mais tarde ainda existiam mourarias habitadas nas principais cidades e vilas do sul do País. Conservaram-se, por isso, muitos termos de origem árabe, como: adiafa (refeição oferecida pelo patrão no final de tarefa prolongada), açoteia (varanda sobre a casa), algeroz (pequeno canteiro), almadrava, alminzém, almenxar,azebibe, azial. Além disso e por motivo também de alguns outros factores, aconteceram evoluções ou inovações linguísticas que, em geral, no resto do território nacional não se verificaram. Estas evoluções e inovações regionais são muitas vezes consideradas formas deficientes de pronúncia, mas mais correctamente se lhes deverá chamar pronúncias diferentes do português corrente. Estão nestas mesmas circunstâncias as palavras neolatinas que são, ao mesmo tempo e pelas mesmas razões, modos de pronúncia diferenciados do latim, que aqui é a língua base. Principais particularidades do falar algarvio. Apresentam-se a seguir as particularidades que fazem do falar algarvio talvez o de mais marcada individualidade no continente português. São particularidades fonéticas, morfológicas e sintácticas e tanto umas como outras têm, em regra, maior predominância entre as pessoas menos letradas. É, resumidamente, aquilo que expus a este respeito no Apêndice do "Dicionário do Falar Algarvio". Particularidades fonéticas 1 - Ditongos decrescentes (vogal forte + vogal fraca): geralmente verifica-se ao sul do Tejo (e sobremaneira no Algarve) uma acentuada relutância no uso destes ditongos, quando se lhes segue outro fonema, quer na própria palavra, quer na palavra seguinte. Dá-se uma monotongação, com o predomínio lógico da vogal forte. A monotongação dos ditongos ei e ou abrange mesmo todo o sul e boa parte do centro do País, com excepção feita em Lisboa para o ditongo ei. Ex.: animás (animais), não quero más (mais), Pàlino (Paulino), pàzinho (pauzinho), pêto (peito), lête (leite), sês (seis), farnés (farnéis), calhèzinho (calheuzinho), o mé (meu) chapé (chapéu) novo, ele medi (mediu) tudo, ele ouvi (ouviu) falar; munto (muito), lençós (lençóis), depôs (depois); passô (passou) bem, ôtro (outro), ôrives (ourives), os cãs (cães), os pãs (pães); Joã (João) Dias, fêjõs (feijões). 2 - Palavras esdrúxulas e "quase-esdrúxulas": uma das particularidades fonéticas mais notáveis é a grande relutância em pronunciar palavras com acento tónico muito "recuado", como é o caso das palavras esdrúxulas e também das palavras com acento tónico na penúltima sílaba mas que têm a última um pouco mais demorada ou menos simples que a habitual vogal surda, às quais chamarei "quase-esdrúxulas", para assim as diferenciar das esdrúxulas propriamente ditas. É, aliás, uma característica normal do português a pouca preferência pela acentuação esdrúxula, só que no falar algarvio essa pouca aceitação é tão exagerada que atinge praticamente a rejeição. Recorre-se geralmente a vários processos que permitam a transformação da palavra esdrúxula, ou da "quase-esdrúxula", em palavra grave com vogal surda final. Esses processos podem agrupar-se mais ou menos como segue: No caso das esdrúxulas propriamente ditas: a) Contracção das duas últimas sílabas por queda da vogal da penúltima. Ex.: cant’ro (cântaro), puc’ro (púcaro), bac’ro (bácoro), abob’ra (abóbora), rot’la ( rótula), vav’la (válvula), apost’lo (apóstulo), max'mo (máximo), clin’co (clínico), higién’co (higiénico), Hipol’to (Hipólito), muz’ca (música), sab’do (sábado), anal’se (análise), oc’les (óculos). b) Contracção das duas últimas sílabas por queda da vogal da penúltima, mas com transformação da labial m em labial b que se articula melhor junto ao r. Ex.: cãbra (câmara), cõbro (cômoro), numbro (número). c) O acento tónico é pura e simplesmente empurrado para a penúltima sílaba, podendo em alguns casos haver ligeira modificação da palavra Ex.: cocégas (cócegas), recino (rícino), esp’rito (espírito). d) Contracção das duas últimas sílabas, com queda da vogal da penúltima e da consoante da última. Ex.: relampo (relâmpago), estomo ou estamo (estômago), Barba (Bárbara), fenomo (fenómeno), cadrupe (quadrúpede), Teofo (Teófilo), empresto (empréstimo), marme (mármore), arve (árvore), taranta (tarântula), Capito (Capítulo), triango (triângulo). No caso das palavras "quase-esdrúxulas": a) A vogal fraca do ditongo crescente final que caracteriza especialmente a palavra, transita para a sílaba tónica onde vai formar ditongo decrescente com a vogal tónica, sem que se perca a sua presença caracterizadora. Ex.: almairo (armário), inventairo (inventário), Inaiço (Inácio), ãiças (ânsias), paito (pátio), histoira (história), Gloira (Glória), purgatoiro (purgatório), Gregoiro (Gregório) negoiço (negócio), cermoina (cerimónia), buizo (búzio), duiza (dúzia). b) A vogal fraca do ditongo crescente final desaparece sem ir formar ditongo decrescente com a vogal da sílaba tónica como na alínea anterior, por isso se tornar difícil. Ex.: escarno (escárnio), Estefana (Estefânia), naufrajo (naufrágio), cemitero (cemitério), Inzebo (Eusébio), mestero (mistério), influença (influência), mesera (miséria), colejo (colégio), oxigeno (oxigenio), Quetera (Quitéria), leras (lérias), gemos (gémeos), Emila (Emília), Otila (Otília), poliça (polícia), liro (lírio), viço (vício), Hermino (Hermínio), famila (família), principo (princípio), maliça (malícia), noda (nódoa), mexorda (mixórdia), relojo (relógio), Jula (Júlia), refujo (refúgio). c) A última sílaba é reduzida ou então modificada. Ex.: Setubla (Setúbal), Anible ou Anibe (Aníbal), razoavle (razoável), alt'move ou atmovle (automóvel), terrivle (terrível), miseravle (miserável), arratle (arrátel), saudavle (saudável) difiçle (difícil), façle (fácil), Almodôva (Almodôvar), revolvo (revólver), viaja (viagem), bagaja (bagagem), araja (aragem), fulija (fuligem), babuja (babugem), ferruja (ferrugem), Cristovo (Cristóvão). 3 - Som -en-(e -em-) não final aparece com a pronúncia ã em muitas zonas rurais. Ex.: está mau tampo; antre Faro e Lisboa; faz vanto; um çanto de figos; estás vando o alpandre; dantro de momantos; não faz diferança; uma doança grave; o lanço de assoar; Alantejo. 4 - Som -ô- mantido na passagem para o plural, ao contrário da norma do português, segundo a qual deve ser pronunciado -ó-. Ex.: tremôços, ôlhos, ôvos, jôgos, miôlos, saborôsos, pôlvos, gulôsos, dispôstos. 5 - Som -ô- mantido na passagem para o feminino, ao contrário da norma, que manda pronunciar -ó-. Ex.: compôsta, pôça, venenôsa, sardôsa, gostôsa, formôsa. 6 - Som -ü- em algumas áreas do Barlavento, sobretudo em Vila do Bispo, onde é usado um -ü- tónico semelhante ao -ü- francês ou ao -ü- açoriano. Ex.: alüno, algüns, lüme, tü, alcünha, lüxo. 7 - Nas modificações de som por queda salientam-se: a) Aférese (queda de fonema inicial) em certas palavras, como: postar (apostar), panhar (apanhar), sobiar (assobiar), presentar (apresentar). b) Apócope (queda de fonema final) do som -u-. Ex.: fig' (figo), cop' (copo), amig' (amigo), quand' (quando), log' (logo).. 8 - Nas modificações de som por adição ressaltam: a) Prótese (acrescento de fonema inicial). Ex.: aceifar, apegar, assombra, avoar, apoisar, anoz, assabão, anêspera, alevantar, avespa ou avesp’ra. b) Paragoge (acrescento de fonema final) nos casos seguintes: . palavras terminadas em -r (só no fim de frase). Ex.: veri, comeri, fazeri, cantari, o folari, o senhori. É muito característico de Loulé. . palavras terminadas em -é (só no fim de frase). Ex.: rapéi, féi, péi, caféi, Lòléi, Zéi. . palavras terminadas em -ê (só no fim de frase). Ex.: vocêi, porquêi?, ela lêi. . palavras terminadas em -ó (só no fim de frase). Ex.: avóu, filhóu, enchóu, aí chóu!. . palavras terminadas em -ã (só no fim de frase). Estas palavras, sendo em geral femininas, tomam o aspecto de palavras masculinas mas mantêm o género. Ex.: uma romão, fruta temporão, a minha irmão, amanhão, tosquiar a lão. 9 - Na pronúncia do s simples, verifica-se em Olhão um fenómeno isolado do resto da Província, que consiste numa acentuada preferência pelo uso da sibilante sonora z em vez da pronúncia x próxima do j, que aquele fonema normalmente apresenta em posição intermédia não intervocálica ou em posição final. Ex.: âze môzecâze (as moscas), tu éze (és) doido, tu táze (estás) parvo, há diâze (dias) no mar dâze (das) Berléngâze (Berlengas), uze (os) fig'ze (figos), Carl'ze (Carlos), tenze (tens). Particularidades morfológicas 1 - Formação de palavras: a) Sufixo -ito antecedido de nasal: este sufixo diminutivo quando vem depois de nasal apresenta uma feição muito meridional, que consiste na manutenção do antigo -n-, podendo mesmo considerar-se a existência dum sufixo -nito. Ex.: grão/granito, cão/canito, Conceição/Çanita, romã/romanita, alemão/alemanito, feijão/feijanito, lava as manitas para comer panito. b) Fuga aos ufixos -zinho e -zito: há uma certa relutância no uso destes sufixos, fugindo-se sempre que possivel a usar o z, utilizando de preferência -inho e -ito. Ex.: amendoinha por amendoazinha, castanhita por castanhazita, ameixinha por ameixazinha. Trata-se de uma rejeição semelhante ao assunto da alínea anterior, onde também se foge ao uso do sufixo com z. Há, no entanto, casos em que o z é mantido, porque a sua rejeição iria ocasionar má fonia. É o caso, entre outros, dos diminutivos de palavras terminadas em -au e -éu, nas quais, porém, se dá o desaparecimento do u, para evitar uma articulação demasiado "volteada", que não é do agrado dos falantes algarvios. Ex.: pau/pàzinho, carapau/carapàzinho ou carapàzito, calhéu (calhau)/calhèzinho ou calhèzito, griséu/grisèzinho ou grisèzito, véu/vèzinho ou vèzito. No entanto, se a etimologia permite outra forma, mais uma vez os sufixos -zinho e -zito são evitados, como no caso de chapelinho ou chapelito e não chapéuzinho. c) Sufixo diminutivo -inho transformado em -ino, quando a consoante da sílaba precedente é um n que provoca uma assimilação progressiva sobre o nh. Ex.: canina (caninha), panino (paninho), penina (peninha), finino (fininho), donina ou doinina (doninha), danino (daninho), tonina ou atonina (toninha). Será o mesmo fenómeno que faz dizer pequenino em vez de pequeninho e menino por meninho? d) Sufixo -eco: frequente na zona de Lagos. Exemplos mais interessantes: cão/caneco, moço/mocheco, gato/gateco. Por analogia, fuinho diz-se fueco. e) Sufixo -ão: este sufixo é usado de forma muito interessante nas palavras alfarrobeirão e oliveirão, que designam as duas árvores enquanto bravas, isto é, antes de serem enxertadas. Estas designações de masculinos aumentativos e não apenas de simples masculinos alfarrobeiro e oliveiro (estes, aliás, também aparecem, embora pouco), poderão ser para reforçar essa qualidade "macha" (não fêmea) das árvores no seu estado estéril. f) Sufixo -eira antecedido de nasal: identicamente ao que acontece com a formação dos diminutivos das palavras terminadas em nasal (ver alinea a) - sufixo -ito), também na formação das palavras romaneira e maçaneira se rejeita o z e se mantém o antigo n. g) Sufixo -um: este sufixo, que normalmente serve para designar raça ou qualidade de animal, tem no Algarve ainda outro uso muito especial, para formar palavras que designam cheiro desagradável. Ex.: pexum (cheiro a peixe), canzum (cheiro a cão), sovacum (cheiro a sovaco), bedum ou bodum (cheiro a bode), cheirum (mau cheiro), farum (cheiro de alimentos em vias de se deteriorarem), fartum (bafio). Também ocorre noutros sentidos, geralmente com feição desagradável ou depreciativa, como em mulherum (mulherio), ervaçum (ervaçal). 2— Verbos (alguns casos): a) Gerúndio: apresenta dois usos peculiares: . Aparece conjugado em todas as pessoas, como qualquer tempo verbal. Ex.: em eu querendo vou; tu indes também voltas; quando ele voltando logo chega; em chegândémos comemos; quando eles comendem vão estudar. . A seguir aos verbos andar, estar, ficar, ir, vir e alguns outros, usa-se exclusivamente o gerúndio e só muito raramente o infinitivo precedido da preposição a, como é habitual no português corrente. Ex.: andei lavrando, estavas comendo, ficou chorando, fomos correndo, vieram saltando.Trata-se duma construção lógica e prática. Também assim o entendem, porque a usam, os espanhóis, os italianos, os brasileiros e os ingleses. b) Particípio passado irregular: é muito frequente o uso desta forma, praticamente sempre que o verbo o permite. O acento tónico passa geralmente para a vogal do radical. Ex.: cortado/corto (cabelo corto à escovinha); arrependido/repeso (porta-se mal e depois fica repeso); debotado/deboto ou desboto (quando como marmelos fico com os dentes debotos).Também no português comum aparecem muitos particípios irregulares, como: enxuto (enxugado), rôto (rompido), descalço (descalçado), etc. c) Pretérito perfeito dos verbos em -ar: é usual, sobretudo nas zonas mais rústicas, a 1.ª pessoa do singular terminar em -i em vez de -ei, por analogia com os verbos em -er e -ir. Ex.: levanti, janti, ceifi, compri, cumprimenti. d) 3.ª pessoa do plural terminando em -am (presente, pretérito perfeito, imperfeito do indicativo e outros tempos): é muito frequente na zona de Portimão o uso da terminação -em em vez de -am. Ex.: forem e já vierem; eles andavem; não faziem caso; eles comprariem. e) Presente do conjuntivo do verbo -ir: nas 1.ª, 2.ª e 3.ª pessoas do singular e na 3.ª pessoa do plural aparecem as seguintes formas: Obs. Boliqueime: vanha, vanhas, vanha, vanham; Obs. Faro: vaia, vaias, vaia, vaiam. Estas formas de Faro assemelham-se ao espanhol. Ex.: quero que vanhas /vaias; não vanham /vaiam porque vai chover; dizem-me que vanha /vaia mas não vou; não gosto que a criança vanha /vaia só. f) Verbo dar: É muito frequente o uso deste verbo, acompanhado de um particípio passado, com o sentido de conseguir, poder, ser capaz. Ex.: o prato está muito cheio, não dou isto tudo comido; vê se dás o trabalho acabado hoje; é uma palavra alemã, não dou isso dito; vou ver se dou a matéria toda lida; eles não dão as sacas atadas a tempo; tenho maus dentes, não dou isto mastigado. Particularidades sintácticas 1 - Pronome pessoal complemento mim usado como sujeito, em vez de eu. Ex.: isto é para mim estudar hoje; este pão é para mim comer; a pasta é boa para mim levar à escola. Trata-se de arcaísmo, que também é usado no Brasil. 2 - Pronomes demonstrativos aquele, aquela e seus plurais: aparecem colocados depois dos substantivos, em função algo diferente, não muito, do seu sentido normal. Ex.: o rapaz aquele; a Joana aquela; Vila Real aquela; o livro aquele. Também pode acontecer com esse, essa, mas não com este, esta. Parece tratar-se de influência espanhola porque a frequência de uso é maior próximo da fronteira. Creio, porém, mais no seguinte: com vista a reforçar, para melhor compreensão, aquilo que quer dizer, o falante procura especificar a localização daquilo de que fala, através dos demonstrativos. Assim, colocando-os fora da sua posição normal, realça a noção de maior ou menor afastamento já contida nos próprios pronomes. Idêntico reforço fazem os franceses quando acrescentam os advérbios ci (aqui) e là (além) aos demonstrativos ce, cette, celle, etc., os quais já contêm em si mesmos a noção de lugar onde. Outros casos há em que a pessoa que fala parece recorrer também ao demonstrativo em posição posterior, porque não lhe ocorre rapidamente o nome da pessoa a que se vai referir e assim, com uma alusão à respectiva localização, procura fazer-se entender. Ex.: ali o vizinho aquele; a tua tia aquela; o meu compadre aquele; ali aquele tipo ou só o aquele. * Autor do "Dicionário do Falar Algarvio" |